Horizonte de Palavras

Porque escrever é olhar além…

Vendedora de discos de vinil resiste à era digital

Raridades da música mantêm o negócio de “dona” Abadia. Comércio de LP’s permanece intocável há 15 anos

Por Érica Teles

Cliente saudosista não abre mão do vinil

Provavelmente quem passa pela via W3 Sul, no coração de Brasília, já deve ter visto a senhora que vende discos de vinil na calçada do comércio local. Maria Abadia, que prefere não dizer a idade, revela que está no “ramo do vinil” há 15 anos e desperta curiosidade por vender LP’s em plena era da tecnologia do download. Em meio a exemplares raros, como “Please, please me”, de 1963, primeiro álbum do The Beatles, e uma parceria entre Ney Matogrosso e Secos e Molhados, de 1973, a evangélica revela que não ouve seus produtos, prefere ler a Bíblia. Maria Abadia acredita que seu negócio não vai acabar por ser um “dom de Deus”, e que sempre existirá um apaixonado por música e por antiguidades. Ela jura que nunca ficou um dia sequer sem vender um disco.

– Como a sra. veio parar neste ramo? Por que vender discos de vinil?

Maria Abadia– Por falta de emprego. Na verdade não foi falta de emprego, porque eu nunca trabalhei para os outros. Foi uma opção própria, uma oportunidade que apareceu. Então eu fiz um voto na igreja, uma promessa. Tentei. E, se desse certo, eu continuaria. Já fazem 15 anos e estou aqui até hoje.

– Na época a sra. imaginava que iria dar certo essa tentativa?

Maria Abadia-Sim. Porque eu não arrisquei. Tudo o que eu fiz ou faço hoje eu coloco a certeza de que vai dar certo. E dá. Tudo eu faço com certeza. Foi dom do Espírito Santo de Deus. É complicado explicar, porque nem todo mundo entende a minha escolha.

– A sra. costuma ouvir os discos que vende?

Maria Abadia – Por incrível que pareça, eu não ouço. Às vezes ouço música clássica, mas raramente, e não tenho preferência. Eu gosto de ouvir música de louvor, da igreja. Meus cantores preferidos são Jota Neto e Márcio Nascimento.

– Que tipo de pessoa compra seus discos de vinil?

Maria Abadia – Todo tipo de pessoa compra. De todas as idades e de todos os níveis. Já as pessoas de classe alta, costumam comprar mais. Gente que tem dinheiro mesmo. Eles compram mais raridades. Os discos mais antigos, da década de 50 ou 60.

– Há uma clientela fixa?

Maria Abadia – Sim. São os colecionadores. Tenho muito disco difícil de ser encontrado. Geralmente, eles fazem encomenda. Já vendi para muitos estrangeiros. Eles compram LP’s de música brasileira mais que os próprios brasileiros.

– Estamos na era da tecnologia, quando a maioria das pessoas baixa as músicas ao invés de comprar o cd. A sra. acha que é importante manter essa tradição de ouvir discos de vinil?

Maria Abadia – Os meus clientes que são colecionadores preferem o vinil. Quem compra gosta, né. Eles comentam que o som é melhor, que tem mais qualidade. É o que eles me dizem. O meu negócio nunca vai acabar. Até proposta para vender nos Estados Unidos eu já recebi, para vender disco importado, e eu não fui. O único lugar que parou de vender vinil foi no Brasil, porque nos outros países nunca parou. Aqui que teve essa baixa e agora está ficando em alta de novo. Está na moda.

Vinil ainda faz sucesso entre colecionadores

LP's raros

27/04/2011 Posted by | Multiplicidade, Na Imprensa | , , , , | Deixe um comentário

Redes arrecadam R$ 290 mil com troco

Moedas deixadas por clientes ajudam no orçamento da Abrace e Fundação CDL. Apesar de sofrer resistência, projeto já muda rotina de instituições

Por Érica Teles

Solidariedade vale muito e custa pouco

Os centavos que sobram da conta do supermercado podem valer mais do que se imagina. Ao invés de acabarem no fundo da gaveta, podem ir para iniciativas como o “Troco Social”, que muda o destino das moedinhas que o cliente recebe no caixa. Apesar de existir desde 2009, o programa conta com poucos adeptos. A mãozinha da clientela solidária garantiu que fossem arrecadados mais de R$ 220 mil em 2010.

A ideia nasceu com uma rede de drogarias do Distrito Federal, que incentiva os clientes a doarem o que sobra das compras para instituições beneficentes. Dessa maneira, eles levam os produtos e deixam a solidariedade. As doações vão para a Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadora de Câncer e Hemopatia (Abrace) e para a Fundação CDL, instituída pela Câmara de Dirigentes Lojistas do DF, que cuida de crianças e adolescentes em situação de risco social.

A rede imaginou que, se os clientes doassem apenas o troco, o arrecadado já seria significativo, e a partir daí surgiu a campanha “Troco Social”. O valor doado é registrado em cupom não-fiscal, pois se trata de uma transação isenta de impostos, e repassado mensalmente às entidades. O projeto arrecadou em 14 meses aproximadamente R$ 290 mil, e segundo a gerente de Marketing do Grupo Rosário Distrital, Natália Silveira, 70% do arrecadado foram destinados à Abrace e 30%  à Fundação CDL.

De acordo com a assessora de comunicação da Abrace, Vanessa Vieira, até fevereiro deste ano, a associação já recebeu R$ 202.543,74. Ela afirma que o dinheiro foi usado na reforma e manutenção da Casa de Apoio, que hospeda pacientes que vêm de outros estados para tratamento, e na compra de um veículo novo para o transporte das crianças.

“Essa e todas as outras doações recebidas são de fundamental importância para a instituição, uma vez que ela tem seu trabalho mantido por doações da comunidade e de empresas”, esclarece Vanessa.

A conscientização

A operadora de caixa Taynan Porto, 20, trabalha em uma rede de supermercados que promove a mesma ação social, com o nome de “Troco Solidário”. Segundo ela, os funcionários sempre incentivam os clientes a doarem, mas alguns não acreditam na seriedade da iniciativa. “Eles pensam que fica para o dono do supermercado”, diz a funcionária. “A cada dez clientes com quem falo, só dois deixam a troco”, estima.

Entre os que acreditam na credibilidade do Troco Solidário, está o analista de sistemas Thiago Silva Santos, 20. Ele afirma que uma funcionária do supermercado o informou do projeto, e que agora deixa a contribuição a cada compra que faz, geralmente duas vezes por semana. Thiago diz que gosta de fazer doações pessoalmente, mas ajuda assim mesmo. “Não gosto muito de doar dessa maneira, prefiro ir diretamente à instituição, mas achei essa ideia criativa. Prefiro acreditar, mesmo sendo difícil”, explica o analista.

* Para mais informações a campanha da Drogaria Rosário,  acesse o site http://www.drogariarosario.com.br/menu/a-rosario/responsabilidade-social/

 

06/04/2011 Posted by | Na Imprensa | Deixe um comentário

As várias formas de amar…

Procure me amar quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso

Falamos à beça de amor. Apesar das nossas singularidades, temos pelo menos esse desejo em comum: queremos amar e ser amados. Amados, de preferência, com o requinte da incondicionalidade. Na celebração das nossas conquistas e na constatação dos nossos fracassos. No apogeu do nosso vigor e no tempo do nosso abatimento. No momento da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor. Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso viver muito para percebermos nos nossos gestos e nos alheios que não é assim que costuma acontecer.

Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza. Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente. Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta. Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro. Aparentemente estável. Que quando sofre não faz ruído algum.

Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre. Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem politicamente incorretos nos outros, embora costumem ser justificáveis em nós. Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir. Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.

É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens com fluência, um bom cappuccino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.

Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. E fala o tempo todo do seu drama com a mesma mágoa. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando até a própria alma parece haver se retirado.

Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor, acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre acompanhado de explicação. Difícil amar quando parece existir somente apesar de. Quando a dor do outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido principalmente dele próprio.

Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar fragilidade. Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, para caminhar ao seu encontro.

Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a trilha sonora. Quando se enreda nos vícios da forma mais grosseira e caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também estamos incluídos nesse grupo.

Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja o tempo em que o outro mais precise se sentir amado. Para entender, basta abrirmos os olhos para dentro e lembrar das fases em que, por mais que quiséssemos, também não conseguíamos nos amar. A empatia pode ser uma grande aliada do amor.

Texto de Ana Jácomo

05/04/2011 Posted by | Crônicas | , , , | Deixe um comentário