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Reciclando dignidade

Reportagem mostra a importância do trabalho dos catadores de materiais recicláveis, que encontram em meio ao lixo sua fonte de renda

Cooperativas exercem uma função que seria do Estado

Fim de show. Sujeira. Restos da festa de uns, viram sustento de outros. As latinhas de alumínio que antes guardavam a alegria, agora guardam a esperança da sobrevivência.  Essa é a realidade de pessoas que encontram nos materiais recicláveis sua alternativa de vida, e transformam as marcas do consumo exagerado em fonte de renda. Isso retrata a diferença social no país, onde a falta de iniciativa governamental, faz grupos de catadores realizarem o trabalho de coleta e reciclagem.

De acordo com o APL (Arranjo Produtivo Local dos Resíduos Sólidos do DF), são recolhidos mensalmente 210 mil toneladas de resíduos próprios para reciclagem. Deste total, 60 mil toneladas são provenientes das residências, e o restante é produzido pelas construções. Entre os principais resíduos encontrados no lixo urbano e que são recicláveis em potencial está o alumínio.

A coleta de latas usadas envolve mais de 160 mil pessoas no Brasil vivendo hoje exclusivamente desta atividade, com renda média de dois salários mínimos. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), dentre os materiais reciclados no país, o alumínio continua a ser destaque, com índice de reciclagem que supera os 90% há cinco anos.

Isso mantém o país como campeão na reciclagem de latas, entre os países onde esta atividade não é obrigatória por lei. Com isso, as reservas de bauxita, que geram o alumínio, são preservadas, o que evita o impacto ambiental causado pela exploração mineral.

No DF, assim como em todo o país, alguns catadores de alumínio se reúnem em cooperativas. A Centecoop – DF (Central de Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis do Distrito Federal) reúne 22 cooperativas autônomas de catadores. A valorização humana é prioridade no trabalho, que é baseado na economia solidária. No total, são 3.500 pessoas associadas ou cooperadas, e mais 15 mil que trabalham direta ou indiretamente com a reciclagem de materiais no DF.

Coopativa (Cooperativa Popular de Coleta Seletiva

Com a quantidade de lixo produzida na capital, existe uma concorrência entre as próprias cooperativas. Alguns grupos de trabalhadores procuram as administrações dos locais para ter acesso exclusivo aos materiais recicláveis. “Essa semana fizemos uma reunião com a administração do Sia e da Feira dos Importados para a coleta seletiva. Nessa reunião com o administrador e o SLU (Serviço de Limpeza Urbana) ficou combinado que todo o lixo produzido nessa região virá para nossa cooperativa” afirma Edson da Silva, (47), cooperativado da Coopativa (Cooperativa Popular de Coleta Seletiva).

Cooperativas exercem uma função que deveria ser do Estado. Apenas neste ano foi aprovada a Lei de Resíduos Sólidos, sancionada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto deste ano, em Brasília, depois de 20 anos esperando por aprovação no Congresso. A lei institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que regulamenta a destinação final dos lixos produzidos. Entre as diretrizes da PNRS está a proibição do lançamento de resíduos sólidos em praias, rios e lagos, e queimadas de lixo a céu aberto. A política incentiva também a reciclagem e compostagem – transformação do lixo em adubo – e proíbe a coleta de materiais recicláveis em lixões ou aterros sanitários.

Segundo Genebaldo Freire, (62), professor e gestor ambiental da UCB (Universidade Católica de Brasília), a demora para a aprovação do projeto revela o problema. “Um país que demora tanto tempo para fazer isso, mostra ao mundo que é inepto para estar no caminho da sustentabilidade. O Brasil se salva pela iniciativa privada, pela eficiência das empresas e instituições privadas”, critica o gestor.

Autonomia X União

Entre os que se dedicam à reciclagem, estão os cooperativados e os catadores “autônomos”. O trabalho realizado entre eles é praticamente o mesmo, o de separação dos resíduos. A diferença é o lucro obtido pela venda, que depende da força de trabalho de casa um. Os que têm a liberdade de entregar os recicláveis para qualquer sucateiro podem escolher entre os que pagam melhor, e se o preço oscilar, optar por outro resíduo mais rentável.

As condições em que exercem sua função também os diferenciam. Catadores que não possuem carrinho próprio tendem a se submeter aos critérios de um sucateiro, que cede o instrumento em troca de exclusividade na concessão dos materiais. Possuir o próprio carrinho vira status social.

Já os que se unem a grupos, se tornam parte de um trabalho organizado e mais representativo. “Se não houvesse a construção desse processo de cooperativa e associação, nós não teríamos conseguido o Decreto nº 5.940 – que obriga os órgãos públicos a destinar seus resíduos às cooperativas e associações”, afirma Ronei Alves da Silva, presidente da CENTCOOP . Segundo ele, um cooperativado consegue juntar por mês, em média R$ 200, dependendo da sua produtividade.

Barriga vazia, carrinho lotado

O trabalho informal faz parte da rotina de 20 mil famílias brasilienses. Entre elas está a de Gilson Bezerra, 43. Ele colhe materiais recicláveis, como papelão e latinhas, e nos finais de semana vende artesanato junto com a esposa em feiras locais. “A gente vende o material de quinze em quinze dias, às vezes até mensalmente, e dependendo do trabalho dá para ganhar uns R$ 300”, conta Gilson. “Queria aposentadoria, não me deram, não tenho a quem pedir, vou trabalhar enquanto der”, afirma.

Wellington dos Santos,(41), faz e vende artesanatos de latinhas de alumínio

Há quem prefira trabalhar individualmente com os recicláveis. Wellington dos Santos, (41), é morador de rua e vigia carros. Em seu trabalho informal, produz e vende artesanato de alumínio na quadra 405 sul. Nordestino, veio para Brasília há dois anos, e desde então sobrevive como flanelinha e da ajuda de outros moradores de rua. “Começamos com o artesanato, e os clientes gostaram. Então a gente aumentou a produção para conseguir tirar nosso sustento. A gente percebeu que se ficasse só catando as latinhas, nós perdíamos muito tempo na hora do artesanato, por isso que existem os colaboradores”, afirma. Com o dinheiro da venda do artesanato, Wellington consegue juntar entre R$ 35 e R$ 40. “Com esse dinheiro a gente compra nossos alimentos e ajuda nossa família”, conclui.

A solução para a problemática parte de uma série de medidas. Iniciativas privadas e públicas quanto ao destino correto do lixo, envolvimento da comunidade e programas de educação ambiental são possíveis alternativas.

26/11/2010 Posted by | Na Imprensa | , , , , , | Deixe um comentário