Horizonte de Palavras

Porque escrever é olhar além…

Em busca de um nova política

Por Érica Cristine

Após o período de repressão política e social vivido na ditadura militar, estudantes se organizaram e se mobilizaram em busca de seus direitos. Entre eles estava Paulo Tadeu, morador da cidade serrana do planalto central, Sobradinho. Defendendo convictamente o socialismo, começou então uma luta que, após sua filiação ao Partido dos Trabalhadores (PT), ganharia mais sentido e direção. Apoiando sempre a classe trabalhadora, foi eleito em sua primeira candidatura a deputado distrital em 1998, e a partir daí se destacou devido a sua atuação política na Câmara Legislativa do Distrito Federal.

Em entrevista que antecede às eleições de 2010, em que se candidata a deputado federal, Paulo Tadeu fala de seus ideais políticos e  trabalhos em prol da população do DF.

O senhor começou bem cedo na vida política. O que o levou a seguir essa carreira?

Paulo Tadeu: A vida política é inerente a qualquer cidadão, inclusive àqueles que dizem não gostar de discuti-la. Essas pessoas estão, na verdade, optando pelo status quo, acomodando-se com a situação existente. Além disso, à acepção de “carreira política”, que pode significar uma profissão, eu prefiro enxergá-la como um modo de vida. Nesses termos, posso dizer que encaro a prática da política com a convicção de que uma sociedade socialista é muito melhor do que uma capitalista. Veja que as leis podem servir para manter as desigualdades criadas pela estrutura social institucionalizada pelo Estado. Se nascemos todos iguais, todos temos de ter direito às mesmas coisas, aos mesmos bens e aos mesmos serviços. Ultrapassar esse imenso fosso que separa os que tudo têm daqueles que nada têm parece ser o desafio que a sociedade, mais cedo ou mais tarde, terá de enfrentar. E o socialismo é o caminho para isso.

Quais eram os seus principais ideais políticos na época em que começou a atuar como deputado? Esses ideais permanecem até hoje?

Paulo Tadeu: Sempre tive o socialismo como meu ideal político, associado à defesa da classe trabalhadora. Nada disso mudou nos doze anos de mandato na Câmara Legislativa.

Como representante da população de Sobradinho, cidade onde nasceu, qual foi o primeiro benefício concreto que o senhor conseguiu levar à cidade por meio de sua atuação como deputado?

Paulo Tadeu: Houve muitos investimentos novos não só para Sobradinho, como para o DF como um todo, sempre por meio de emendas ao orçamento do DF. A duplicação da DF-150 obteve  ótima repercussão, pois se tratava de antiga aspiração dos moradores de Sobradinho. Houve uma ampla campanha, envolvendo a população para sensibilizar o GDF sobre a importância dessa duplicação. Até hoje ainda vejo carros com adesivo “DF-150 Duplicação Já!”.

O senhor apresentou vários projetos de lei na Câmara Legislativa. Um deles é que institui o Passe Livre Estudantil. O que essa proposta representou na sua carreira política?

Paulo Tadeu: O passe livre estudantil foi uma bandeira vinda do movimento dos estudantes e encampada por mim na Câmara Legislativa. A Lei que garante esse direito é uma prova de que é possível ao Deputado Distrital fazer leis pensando na população, ou melhor, fazer leis para atender às justas reivindicações da nossa população, especialmente quando organizada nos movimentos sociais.

Qual foi a maior dificuldade durante o processo de aprovação do Passe Livre Estudantil?

Paulo Tadeu: A resistência dos donos dos ônibus no DF, que pensam apenas nos seus lucros, esquecendo que o transporte público é uma concessão do Estado e um direito do cidadão. Enfrentar o poderio econômico deles não é tarefa fácil. E o GDF, infelizmente, se submete à vontade de boa parte deles.

No início deste ano, os estudantes enfrentaram a falta de recarga nos cartões do passe livre. O que provocou esse transtorno? Foi um problema operacional ou falhas na Lei? O senhor imaginava que isso pudesse ocorrer?

Paulo Tadeu: A Lei não continha falhas. O problema era exclusivamente operacional. Não significa isso que a Lei não poderia ser aperfeiçoada. Ao contrário, tanto que fizemos alterações no meio deste ano. E uma dessas alterações foi justamente para acabar com as filas, ao determinar que a recarga dos cartões seja feita via web, como é feito com o cartão do vale-transporte.

A política no Brasil, em especial no DF, sofreu diversas “turbulências” com escândalos de corrupção. O senhor acha que é possível fazer o povo voltar a acreditar nos nossos governantes?

Paulo Tadeu: Sim. O povo espera dos políticos honestidade e competência. Quem age com base nesses pilares não enfrenta tanta rejeição. Aliás, as eleições que se aproximam serão excelente oportunidade para o eleitor escolher melhor seus representantes.

O que o senhor acha do Projeto Ficha Limpa? Se não fosse uma iniciativa popular, acredita que ele sairia do papel?

Paulo Tadeu: É uma Lei que traz avanços reais no processo eleitoral brasileiro. Pode ser vista como o início de um processo de depuração. Mas é preciso avançar mais, porque há inúmeras formas legais de contornar as suas disposições. Veja, por exemplo, o caso do ex-governador do DF. Não fosse a renúncia por causa da “bezerra de ouro”, não estaria ele com dificuldades na Justiça. No entanto, desde 2003, ele sofre processos criminais no Judiciário, mas esses processos não vão adiante. Ou porque dependem de autorização do Legislativo, que nunca dá, ou porque ficam transitando de um para outro lugar por conta da mudança do juiz competente para julgá-lo.

Quanto à segunda pergunta, creio ser mais legítima a lei quando a sociedade se mobiliza para resolver seus problemas. As soluções institucionais têm de vir das ruas e não dos gabinetes. Por isso, acho que a Lei da Ficha Limpa tem mais força. Sua fonte direta foi o povo. Isso é muito importante, é bem mais importante do que as leis feitas sem a presença do povo.

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21/09/2010 Posted by | Na Imprensa | , , , , | 3 Comentários

A morte é só o lead

Tudo começa pelo fim. É essa a impressão que se dá ao ler as primeiras linhas de um obituário. Em “O Livro das Vidas: Obituários do New York Times”, da editora Companhia das Letras, a arte de escrever sobre a vida a partir da morte, se mistura com um jornalismo que ressalta pessoas comuns, aquelas que dificilmente conheceríamos numa simples manchete de um folhetim.

Um apanhado dos melhores obituários publicados pelo jornal norte- americano, trazem ao leitor histórias que possuem um real valor, mesmo sendo de desconhecidos.

O jornalista brasileiro Matinas Suzuki Jr., que trabalhou na Folha de S. Paulo por 16 anos e é professor na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, liderou a organização dos textos, e ao fim do livro, relata como funciona a editoria que faz esse trabalho jornalístico e comenta algumas publicações.

A seção não tem muito espaço nos jornais brasileiros. Já no NYT e em jornais ingleses, ela ganhou espaço privilegiado. “A seção de obituários do Times é uma cerimônia de adeus diária de bom jornalismo e uma das campeãs de leitura do jornal mais influente do mundo. Há quem pense que a valorização do obituário pela imprensa de língua inglesa seja um ritual de morbidez, mas isso é uma falsa impressão”, escreve Suzuki.

Os textos possuem um padrão, uma espécie de “lead”, com informações do falecido. Dados pessoais e a causa da morte (informada por alguém próximo, que é citado como fonte) ocupam as primeiras linhas, no máximo dois parágrafos. Casos de suicídio não são publicados, da mesma forma que eufemismos, como “nos deixou” ou “passou dessa para melhor”.

Ao ler os obituários, percebe-se que a intenção é mostrar que cada vida tem seu encanto. Mesmo se tratando de anônimos, é fácil imaginar como aconteceram tais coisas. Como eles viviam e o que faziam se torna extremamente interessante. Claro que nem todos os personagens eram desconhecidos. Alguns ganharam até Prêmio Nobel, talvez por que as informações sobre eles fossem adquiridas mais facilmente.

Entre as histórias que ganharam destaque nas páginas do diário, está a de Anne Sheiber, investidora de ações que doou 22 milhões de dólares para a Univesidade Yeshiva. O curioso é que Anne nunca freqüentou a instituição. Ou a de Harry Rosen, dono do restaurante Junior’s. Seu sucesso veio da criação gastronômica, um cheesecake (uma espécie de bolo de queijo), que atraiu vários admiradores, entre turistas, celebridades e políticos. Durante um incêndio no estabelecimento, alguns clientes gritaram: “Salvem o cheesecake!”. Outro personagem foi Meyer Michael Greenberg, que durante 30 anos distribuiu luvas para desabrigados durante o inverno norte-americano. Um ato singelo, mas que ajudou várias pessoas a encarar o rigoroso inverno estadunidense.

Alden Whitman, editor que revolucionou a seção de obituários de NYT, imortalizado por Gay Talese como o Senhor Má Notícia (em perfil incluído na coletânea Fama & anonimato) também foi para lá em 1964. Ele dizia que “um bom obituário não é uma biografia, é uma polaróide da vida”.

O Livro das Vidas é um panorama de diversos acontecimentos do século 20. Detalhes sobre a guerra do Vietnã, a corrida espacial, o crescimento urbano, a II Guerra Mundial, o surgimento dos computadores, a AIDS são facilmente identificadas ao longo de suas páginas.

Ao fim da leitura, concordar com a afirmação de Bill Mcdonald, atual editor do Times, é fácil. Ele diz que “os melhores obituários são aqueles que nos falam de pessoas sobre as quais nós nunca tínhamos ouvido falar antes e nos deixam chateados por não termos tido a chance de conhecê-las”. A nostalgia leva exatamente a esta sensação.

08/09/2010 Posted by | Opinião | , , | 3 Comentários