Horizonte de Palavras

Porque escrever é olhar além…

“Não tinha teto, não tinha nada”, ou não…

Por Érica Cristine, Larissa Silva e Shismênia de Oliveira

O que para muitos não passa de um trecho de uma canção infantil, é a realidade de muitos brasileiros, que não têm casa e ocupam o espaço público. Os chamados moradores de rua improvisam moradias, e sustentam o teto de plástico com a esperança de uma vida melhor.

 O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) não inclui moradores de rua no censo, pois estes não possuem moradia fixa, e obter um número exato de pessoas nessa condição se torna um trabalho mais detalhado.

Segundo dados da Secretaria de Estado e Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), no último levantamento realizado entre janeiro e junho deste ano, dos 1.545 moradores de rua do DF, 64% eram adultos, 24% adolescentes e 12% eram crianças.

Vida sob lonas

Famílias se abrigam às margens da Via L4, em Brasília

Diariamente, agentes da Sedest  fazem rondas diárias em pontos críticos do Distrito Federal com o objetivo de convencer os moradores de rua a irem morar em um dos cinco abrigos públicos existentes na região.  Mas ninguém é obrigado a sair das ruas. “Os abrigos são piores, só tem o que não presta, pelo menos aqui a gente tá em família, e somos todos trabalhadores”, se defende Nilta Paiva dos Santos, 49.

 Além de conversarem sobre o abrigo, os assistentes sociais sugerem outros meios de se ganhar dinheiro. “Os catadores do Riacho Fundo que se associaram a cooperativas ganharam casas do governo”, explica a assessora de comunicação da secretaria, Marina Junqueira. Por outro lado a moradora que prefere ser chamada de Lúcia diz que eles apenas destroem as coisas e não trazem proposta de ajuda.  “Só tenho a ajuda de Deus para trabalhar”, afirma.

O Núcleo de Atendimento ao Migrante foi uma alternativa criada pela Secretaria para diminuir o número de moradores de rua. Ele se localiza na rodoferroviária e oferece passagens gratuitas para quem quiser voltar para a terra natal. O núcleo faz atendimento às pessoas que chegam a Brasília em busca de tratamentos de saúde, trabalho e documentação. Os migrantes ainda podem contar com serviço de orientação, acolhimento e abrigo.  “Na minha cidade só tem roça, e é melhor passar aperto na cidade do que no interior. Eu não quero voltar”, diz Joselita Socorro, 45, alagoana que mora há mais de seis anos na invasão de Taguatinga com suas cinco filhas.

Estadia provisória

Edinalva vive debaixo de lonas durante a semana por não poder pagar passagem todo dia de volta para casa.

A rua também é lar de quem tem casa, mas não tem dinheiro. Eles são considerados moradores de rua, por que vivem temporariamente debaixo de lonas. “De dia a gente tem que tirar a lona, por que se não a fiscalização tira. Mas quando chove a gente tem que colocar, mas mesmo assim, molha tudo”, desabafa Edinalva Oliveira. A catadora se aloja em barracos próximos à Universidade de Brasilia, e precisa caminhar todos os dias até o lago para lavar roupa e buscar água.

A moradora de Brasilinha, município próximo de Planaltina-DF, é casada e tem dois filhos. Segundo ela, na cidade em que mora não há opção de trabalho. “Eu não trabalho em Brasilinha porque lá é muito difícil de ter emprego, fico triste quando falta comida em casa. Lá você procura uma roupa pra lavar, uma faxina pra fazer e não acha”, desabafa. Ela paga R$ 100 de aluguel. “Eu pago meu aluguel com o dinheiro da reciclagem e meu marido também ajuda”, afirma. Segundo ela, gastar            R$ 8,50 de passagem todos os dias para ir e voltar para casa é praticamente impossível.

Edinalva saiu de Irecê, na Bahia, há dez anos e confessa ter vontade de voltar, mas não dá por falta de dinheiro. “Eu tenho móveis  em casa, a mudança ia ser muito cara. Na minha cidade passei aperto, mas sempre trabalhei. Lá as pessoas vivem do trabalho na roça, mas meus  filhos não querem voltar para lá, porque aqui têm emprego”, lembrou.  Ao ser questionada sobre as condições de vida na capital federal, a  catadora confessa que “na cidade não se passa fome, é melhor passar aperto aqui do que no interior. Em Irecê você tem que plantar, colher e viver daquilo. Aqui  já tem tudo pronto. O lixo da cidade é rico”. Sua amiga Nilta interrompe e diz que “Brasília é pai e mãe”.

Edinalva estudou até a 1ª série do ensino fundamental, e seu marido que lhe ensinou a escrever o nome. “Me incomodo de ter casa e ser vista como moradora de rua, mas tenho que trabalhar honestamente”, diz a catadora comovida. Sobre o fato de passar a semana nas ruas, debaixo de lonas em invasões, ela afirma que prefere ficar nesses lugares a ir para abrigos do governo. Segundo ela, os albergues não oferecem segurança alguma . “Os agentes da Sedest são agressivos e quando chegam aqui levam tudo, não querem nem saber”, conclui Edinalva.Por outro lado a secretaria diz que “Ate cesta básica eles levam”,e a assessoria da Sedest nega a denúncia.

Alternativa econômica

Gilson Bezerra sobrevive da venda de materiais recicláveis e mora na semana numa invasão de Taguatinga

Apesar da vida difícil das ruas, alguns preferem passar a semana nessa condição porque não têm dinheiro para pagar a passagem de volta para casa. Na invasão de Taguatinga, próxima ao Carrefour, moram cinco famílias que convivem em situações precárias. “Aqui não tem água, tem dia que não tem comida, perdi o meu filho ano passado, ele tinha oito meses”, conta Lúcia.

Em uma das cinco famílias está Gilson Bezerra, pai de dez filhos, e que apesar de possuir casa própria no Jardim Ingá-Go, se vê obrigado a passar a semana na invasão. “A passagem é muito cara, é melhor passar a semana aqui”, relata o catador. Durante esse período o trabalho dele é colher materiais recicláveis, como papelão e latinhas, e nos finais de semana vende artesanato junto com a esposa em feiras locais. “Queria aposentadoria, não me deram, não tenho a quem pedir, vou trabalhar enquanto der”, afirma. A renda que obtém como catador o auxilia em seu tratamento cardíaco, e frequentemente precisa ir ao médico. A consulta é particular, pois não conseguiu vaga na rede pública, e a cada visita Gilson precisa desembolsar R$ 190. O dinheiro ás vezes não é suficiente para cobrir todos os gastos, e ele precisa da ajuda das filhas. Três filhas vivem na invasão e são catadoras.

    Políticas de solução

Entre os benefícios que a Sedest oferece estão o Auxílio Aluguel, que ajuda quem não tem condições de pagar (embora o benefício dure apenas três meses), passagem de volta para a cidade natal e abrigo em albergues, como a Casa de Passagem “Conviver”, no Setor de Garagens Oficiais Norte. No local as famílias passam o dia e recebem alimentação e tratamento médico. São oferecidos ao todo, 26 programas sociais para retirar as pessoas das ruas.

 

 

 

Sem esmolas

A Sedest  afirma que a ação é difícil por que alguns moradores de rua  não aceitam os benefícios. Segundo a assessora de comunicação da secretaria, Marina Junqueira, a maioria deles prefere permanecer onde estão, pois alegam que ganham mais do que se estivessem em abrigos. Ela diz também que a população contribui para a permanência dessas pessoas em tais locais. “A comunidade ajuda, e assim eles preferem ficar lá”, completa a assessora. “As pessoas vêm aqui, e trazem comidas e roupas para a gente. Mas tem muita gente, e no final do ano os barracos aumentam”, confirma Joselita Socorro.

A prática do “esmero”

Com a intenção de praticar a inclusão social e o progresso da qualidade de vida dos moradores de rua, foi criada uma proposta em 2006: a Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua. Ela tem por objetivo refletir a maneira de sobrevivência de tais moradores em áreas públicas, e tentar combater a desigualdade social, instituída pelo capitalismo. A exclusão traz danos morais, e facilita o desinteresse pelo trabalho, destrói laços familiares e comunitários. 

Feita pelo Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), composto por alguns ministérios, como o Ministério de Desenvolvimento e Combate à Fome e Ministério do Trabalho e Emprego, além da Secretaria de Direitos Humanos, e representantes do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), a Política apresenta alguns princípios e diretrizes que elaboram a mudança da ação pública às questões da população.

Porém, a transparência dessas garantias não chega aos moradores. “Nunca ninguém veio aqui procurar a gente para arrumar emprego”, conta Gilson Bezerra. “A assistência social vem aqui só para fiscalizar e levar tudo que conseguimos no dia com a reciclagem”, desabafa o morador da invasão de Taguatinga. Apesar de haver o consentimento por parte do governo, os moradores reclamam da falta de incentivo. Alegam que fazem parte do Brasil, e merecem dignidade. “Na hora de votar é a gente que coloca eles, mas depois a gente não recebe nada em troca, só miséria”, diz Ednalva Oliveira.

30/11/2009 Posted by | Na Imprensa | , , | Deixe um comentário